domingo, 4 de dezembro de 2011

NOVA PRESENÇA FRANCISCANA - OFM NA AMAZÔNIA


30/11/2011

Um percurso de alguns anos, com debates e reflexões em diferentes instâncias sobre o tema da Amazônia, levando em consideração a nossa presença histórica e os desafios atuais, nos impeliu a elaborar o projeto de uma presença renovada e com novas sensibilidades. 
O nosso Capítulo geral de 2009 optou por assumir o compromisso de um Projeto Integral na Amazônia mediante o reforço da presença histórica, a criação de novas Fraternidades e uma rede de solidariedade em âmbito de toda a Ordem, da Família Franciscana e de outros grupos. Tal decisão capitular, de número 24, passou a ser denominado Projeto Amazônia e que se situa em meio a outras decisões de caráter claramente missionário.

O “Projeto Integral” se compreende no sentido de tomar em consideração as riquezas da biodiversidade e da natureza, hoje agredidas sistematicamente, e a diversidade de povos e culturas que estão sendo ameaçadas. Trata-se de continuar anunciando o Evangelho na ótica franciscana às populações amazônicas, como se faz naquele território desde o século XVI, porém com um compromisso e uma atenção particulares para com a criação como casa de todos os seres e com o apoio às populações mais frágeis e ameaçadas. Neste contexto, a evangelização tem um vínculo obrigatório com a defesa dos direitos humanos e da própria natureza. “É impossível aceitar que na evangelização se possa ou se deva descuidar da importância dos problemas, hoje tão debatidos, que dizem respeito à justiça, à libertação, ao desenvolvimento e à paz no mundo. Seria esquecer a lição que nos vem do Evangelho sobre o amor ao próximo sofrido e necessitado.” (EN, 31) O nosso Ministro Geral Frei José Carballo pede aos Ministros e Custódios da Ordem, em especial aos da América Latina, que criem nas suas Entidades a consciência sobre a importância da Amazônia para a humanidade e sustentem com frades idôneos a Igreja e as Entidades desta região em vista de uma presença franciscana significativa. (Introdução ao folder Presença Franciscana na Amazônia)


O MOMENTO ATUAL DO PROJETO

No momento atual chegamos à constituição de uma nova Fraternidade com seis (6) missionários de diferentes países, entidades e culturas. São frades provenientes das quatro Conferências da América Latina. Cada um foi apresentado pelo seu Ministro Provincial ou Custódio ao Ministro Geral como candidato idôneo para esta missão. E cada um recebeu já a obediência do Ministro Geral. Um encontro em Quito, Equador, no fim de outubro e início de novembro deste ano de 2011, foi o ponto de referência para encaminhar a concretização desta nova Fraternidade na Amazônia. Tal encontro consistiu em reunir os candidatos para um primeiro momento formativo juntos. Houve a presença dos quatro (4) Presidentes das Conferências da UCLAF, do Animador Geral para a Evangelização, do Diretor geral do Escritório de Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC), de um Definidor Geral para América Latina, de um missionário de longa experiência na região amazônica e dos seis missionários. 

Como primeiro passo foi feita uma longa partilha sobre as experiências missionárias de cada um, sobre as motivações e o compromisso em relação ao Projeto Amazônia. Depois foi apresentada a Memória do itinerário percorrido até aqui em relação a este Projeto. Seguiu-se uma ampla reflexão e discussão sobre a nova presença missionária na Amazônia, com a ativa participação de todos. Durante o encontro rezamos, celebramos, fizemos leitura orante da Palavra. 

Uma segunda etapa consistiu, em participar, no III ENCONTRO AMERICANO sobre JPIC, com acento reservado ao tema da Amazônia. Foram quatro dias muito ricos em partilha sobre as experiências missionárias na Amazônia e de reflexão sobre temáticas relativas àquela realidade e sobre os desafios atuais. Houve um amplo espaço para apresentar o Projeto Amazônia a toda a Assembleia, que no fim, escolheu os elementos mais relevantes e os compromissos em nível pessoal, de Fraternidade e de Instituição. 

A terceira etapa foi caracterizada por aspectos práticos para o início da nova Fraternidade:

  • Todos os missionários se encontrarão em Lima, Peru, no dia 1° de fevereiro de 2012, e serão acolhidos por Frei Mauro Vallejo, Ministro da Província S. Francisco Solano, que será a Entidade de referência jurídica para a Fraternidade, e farão visitas às Fraternidades locais para criar uma primeira relação de familiaridade.
  • Os seis missionários se apresentam ao centro médico local, pertencente àquela Província, para deixar os seus dados referentes ao estado de saúde.
  • Os seis missionários participarão do programa de formação permanente daquela Província previsto para a data de 7 a 10 de fevereiro.
  • Em seguida, empreenderão a viagem rumo a Requena em companhia de Frei Mauro Vallejo e do ecônomo provincial. 
  • Na chegada a Requena serão acolhidos por D. Juan Oliver, bispo do Vicariato, e por Frei Lorenzo Alonso, missionário na região.
  • Durante os primeiros dias Frei Mauro e o ecônomo permanecerão com os missionários para arrumar as dependências da moradia.
  • Nos primeiros dias de março haverá a assembleia pastoral do Vicariato da qual a nova Fraternidade participará para uma progressiva inserção na realidade da Igreja local.

No que se refere à residência da Fraternidade, decidiu-se permanecer por um período inicial na pequena cidade de Requena em vista da consolidação da Fraternidade, do conhecimento do território, de uma convivência mais demorada com o pastor; em seguida, com um discernimento entre os missionários e em diálogo com o bispo, podem escolher o lugar mais estável dentro do Vicariato de Requena.  
O acompanhamento da Fraternidade é confiado ao Ministro Provincial da Província S. Francisco Solano e do bispo do Vicariato de Requena, em comunhão com o Presidente da UCLAF e o Governo Geral da Ordem. 

Para o sustento econômico desta Fraternidade e da sua missão se compromete o Conselho Diretor da UCLAF; se criou um Fundo especial por parte da Província S. Francisco Solano; cada Presidente de Conferência da América Latina vai envolver as Entidades para uma contribuição ao sustento; se contará com ajudas do Vicariato de Requena, de Koch Fondation e do Secretariado Geral para as Missões e a Evangelização.


A FRATERNIDADE E ALGUNS TRAÇOS DO SEU ROSTO 

Antes de mais nada os traços do rosto desta nova Fraternidade serão caracterizados pela contribuição de cada Frade missionário que a compõe: Fr. Atílio Battistuz, da Província da Imaculada, Brasil; Fr. Ademir Francisco Matilde, da Custódia S. Coração de Jesus, Brasil; Fr. Eugenio Ortiz, da Província S. Miguel, Argentina; Fr. Bernardo González Guerrero, da Província S. Francisco y Santiago, México; Fr. Vicente Patricio Guerra Torres, da Província S. Francisco, Equador; Fr. Edel Chanchari, da Província S. Francisco Solano, Peru. 

A primeira grande tarefa será construir uma verdadeira Fraternidade, na qual a diversidade dos irmãos é respeitada e promovida como uma riqueza, mas na qual se vive também a comunhão interpessoal e fraterna. 

A Fraternidade é orientada a ser verdadeiramente uma Fraternidade missionária e evangelizadora, sem que os membros se espalhem para assumir várias paróquias ou vários projetos individuais. Os Frades da Fraternidade podem até assumir pouco a pouco compromissos diversos, mas sempre em base ao discernimento na Fraternidade e mantendo a comunhão fraterna. Além disso, a Fraternidade não é destinada a resolver todos os problemas eclesiais ou sociais ou ecológicos da região. 

Esta é enviada para ser uma presença evangélica e franciscana, dando prioridade aos valores próprios do nosso carisma, isto é, à dimensão contemplativa, à vida fraterna em comum, à minoridade, ao espírito missionário em fraternidade. A primeira atitude deverá ser a do discipulado, para escutar, contemplar, aprender, conhecer, aproximar-se e criar relações de amizade e fraternidade. 

A Fraternidade missionária buscará desenvolver dois movimentos: um de inserção na Igreja e nas realidades locais, isto é, no Vicariato de Requena, que tem um território imenso com pouquíssimos agentes de pastoral; outro é de itinerância e mobilidade rumo à realidade pan-amazônica, procurando construir contatos, formas de articulação e de solidariedade com outras presenças franciscanas e de outros grupos. 

Esperamos que a Fraternidade possa ser uma presença nova no sentido de novas atitudes, de leitura e interpretação dos sinais dos tempos e dos lugares, de nova sensibilidade e compromisso para com a defesa e promoção dos direitos das populações locais, dos mais pobres, dos indígenas, com suas culturas e religiosidade, como também em relação à natureza, ao ambiente e a todos os seres. Em relação à Igreja local terá a tarefa de ajudá-la a criar um rosto mais inculturado, com formação de comunidades, com seus ministérios e com vocações locais. 

O Definitório Geral insiste que haja um cuidado particular para um bom início do projeto, levando a sério a característica de uma Fraternidade missionária evangelizadora em chave franciscana e de diálogo simpático e crítico com o mundo circunstante. O Definitório pede também à Fraternidade que elabore em seguida um projeto de vida e missão e os Estatutos Peculiares para clarear bem os papéis dos diferentes sujeitos implicados (a própria Fraternidade, o Vicariato, a Província de referência jurídica, a UCLAF, o Governo Geral e os organismos da Cúria Geral).

Um aspecto que se tornou muito claro ao longo do caminho de preparação do Projeto é que a própria Fraternidade com os seus membros deverá assumir um papel decisivo em dar um rosto concreto à presença franciscana e no dar vida ao Projeto Integral na Amazônia. A esperança é que esta seja a primeira Fraternidade entre outras que virão a formar-se mais adiante.

Fr. Nestor Inácio Schwerz ofm
Definidor Geral e Coordenador da Comissão pró-Amazônia


sábado, 26 de novembro de 2011



TEMPO DO ADVENTO

Novo ano litúrgico

No próximo dia 27 de novembro, a Igreja inicia o novo Ano Litúrgico com a celebração do 1º Domingo do Advento. Diferentemente do ano civil, com o Tempo do Advento, a Liturgia da Igreja inicia um novo ciclo para as leituras bíblicas dominicais, do ano B, no conjunto, marcadas pelo evangelista Marcos.

Se o ano A, em certo sentido, o ano eclesiológico (pela presença da teologia mateana da Igreja como verdadeiro Israel), podemos dizer que o ano B é, principalmente, cristológico, pois é caracterizado pela meditação de Marcos sobre o caráter messiânico de Jesus e do Reino que ele inaugura, ainda que de modo inesperado e não manifesto. Marcos é também chamado o evangelho querigmático, porque nele transparece claramente a estrutura do querigma ou anúncio da atuação, morte e ressurreição do Cristo, como era proclamado no início da pregação cristã.

Tempo de Advento no Ano B
O Advento do ano B parece caracterizado sobretudo pela idéia do encontro com Deus, a realização da promessa de sua irrestrita presença junto a nós. O primeiro domingo sugere uma atitude de preparação geral para o encontro com o Senhor, no fim dos tempos, no "último dia". Isso, porém, nada tem de trágico. Pelo contrário, a liturgia transborda de confiante esperança: "Se rasgasses os céus!" A vinda do Juiz e Senhor da História não é, para os cristãos, a destruição da História, mas seu arremate. Os cristãos estão vigiando para, por sua dedicação aqui e agora, participarem do Reino transcendente. 
O segundo passo do encontro é a conversão, ou seja, a transformação da vida, com vistas ao grande encontro final. A liturgia evoca aqui a pregação escatológica do Batista e as imagens isaianas da terraplanagem do caminho para o Deus libertador. No 3º domingo já ressoa a alegria por causa da presença de Deus, testemunhada pelo Batista e pelo arauto de Is 61, que anuncia a boa-nova aos pobres. No 4º domingo - o domingo de Maria - são confrontados o "sim" de Deus (promessa) e o "sim" da pessoa humana (Maria, "fiat"). Realiza-se a promessa do Messias da linhagem de Davi, graças à disponibilidade da Serva.

(1) Konins, J., Liturgia Dominical, Vozes, Petrópolis, 2004, p.33.
(2) Idem.


Grécia e Itália: a Grande Perversão



22/11/2011
Para resolver a crise econômico-financeira da Grécia e da Itália foi constituído, por exigência do Banco Central Europeu, um governo só de técnicos sem a presença de qualquer político. Partiu-se da ilusão de que se trata de um problema econômico que deve ser resolvido economicamente. Quem só entende de economia acaba não entendendo sequer a economia. A crise não é de economia mal gerida, mas de ética e de humanidade. Estas tem a ver com a política. Por isso a primeira lição de um marxismo raso é entender que a economia não é parte da matemática e da estatística mas um capítulo da política. Grande parte da obra de Marx é dedicada à desmontagem da economia política do capital. Quando na Inglaterra ocorreu uma rise semelhante à atual e se criou um governo de técnicos Marx fez com ironia e deboche duras criticas pois previa um total fracasso como efetivamente ocorreu. Não se pode usar o veneno que criou a crise como remédio para curar a crise.
Chamaram para chefiar os respectivos governos da Grécia e da Itália gente que pertencia aos altos escalões dos bancos. Foram os bancos e as bolsas que provocaram a presente crise que quase afundou todo o sistema econômico. Esses senhores são como talibãs fundamentalistas: acreditam de boa fé nos dogmas do mercado livre e no jogo das bolsas. Em que lugar do universo se proclama o ideal do greed is good, em português, a cobiça é coisa boa? Como fazer de um vício (e digamos logo, de um pecado) uma virtude? Estes estão sentados em Wall Street de Nova York e na City de Londres. Não são raposas que guardam as galinhas mas as devoram. Com suas manipulações transferiram grande fortunas para poucas mãos. E quando estourou a crise foram socorridos com bilhões de dólares tirados dos trabalhadores e dos pensionistas. Barack Obama se mostrou fraco, inclinando-se mais a eles que à sociedade civil. Com os dinheiros recebidos continuaram a farra já que a prometida regulação dos mercados ficou letra morta. Milhões de pessoas vivem no desemprego e na precarização, especialmente jovens que estão enchendo as praças, indignados, contra a cobiça, a desigualdade social e a crueldade do capital.
Gente que tem a cabeça formada pelo catecismo do pensamento único neoliberal vai tirar a Grécia e a Itália do atoleiro? O que está ocorrendo é a sacrificação de toda uma sociedade no altar dos bancos e do sistema financeiro.
Já que a maioria dos economistas dos stablisment não pensam (nem precisam) vamos tentar entender a crise à luz de dois pensadores que no mesmo ano, 1944, nos EUA nos deram uma chave esclarecedora. O primeiro foi um filósofo e economista húngaro-canadense Karl Polanyi com sua clássica obra A Grande Transformação. Em que consiste? Consiste na ditadura da economia. Após a Segunda Guerra Mundial que ajudou a superar a grande Depressão de 1929, o capitalismo deu um golpe de mestre: anulou a política, mandou ao exílio a ética e impôs a ditadura da economia. A partir de agora não teremos como sempre houve uma sociedade com mercado mas uma sociedade somente de mercado. O econômico estrutura tudo e faz de tudo mercadoria sob a regência de uma cruel concorrência e de uma deslavada ganância. Esta transformação dilacerou os laços sociais e aprofundou o fosso entre ricos e pobres dentro de cada pais e no nível internacional.
O outro nome é de um filósofo da escola de Frankfurt, exilado nos EUA, Max Horkheimer que escreveu a Eclipse da razão (por português de 1976). Ai se dão as razões para a Grande Transformação de Polanyi que consistem fundamentalmente nisso: a razão já não se orienta mais pela busca da verdade e pelo sentido das coisas, mas foi seqüestrada pelo processo produtivo e rebaixada a uma função instrumental “transformada num simples mecanismo enfadonho de registrar fatos” Lamenta que “justiça, igualdade, felicidade, tolerância, por séculos julgadas inerentes à razão, perderam as suas raízes intelectuais”. Quando a sociedade eclipsa a razão, fica cega, perde o sentido de estar juntos e se vê atolada no pântano dos interesses individuais ou corporativos. É o que temos visto na atual crise. Os prêmios Nobel de economia, mas humanistas, Paul Krugman e Joseph Stiglitz repetidamente escreveram que os players de Wall Street deveriam estar da cadeia como ladrões e bandidos.
Agora na Grécia e na Itália a Grande Transformação ganhou outro nome: se chama a Grande Perversão.


A Copa (não) é nossa


Frei Betto
Escritor e assessor de movimentos sociais
Adital
Para bem funcionar, um país precisa de regras. Se carece de leis e de quem zele por elas, vale a anarquia. O Brasil possui mais leis que população. Em princípio, nenhuma delas pode contrariar a lei maior – a Constituição. Só em princípio. Na prática, e na Copa, a teoria é outra.
Diante do megaevento da bola, tudo se enrola. A legislação corre o risco de ser escanteada e, se acontecer, empresas associadas à Fifa ficarão isentas de pagar impostos.
A lei da responsabilidade fiscal, que limita o endividamento, será flexibilizada para facilitar as obras destinadas à Copa e às Olimpíadas. Como enfatiza o professor Carlos Vainer, especialista em planejamento urbano, um município poderá se endividar para construir um estádio. Não para efetuar obras de saneamento...
A Fifa é um cassino. Num cassino, muitos jogam, poucos ganham. Quem jamais perde é o dono do cassino. Assim funciona a Fifa, que se interessa mais por lucro que por esporte. Por isso desembarcou no Brasil com a sua tropa de choque para obrigar o governo a esquecer leis e costumes.
A Fifa quer proibir, durante a Copa, a comercialização de qualquer produto num raio de 2 km em torno dos estádios. Excetos mercadorias vendidas pelas empresas associadas a ela. Fica entendido: comércio local, portas fechadas. Camelôs e ambulantes, polícia neles!
Abram alas á Fifa! Cerca de 170 mil pessoas serão removidas de suas moradias para que se construam os estádios. E quem garante que serão devidamente indenizadas?
A Fifa quer o povão longe da Copa. Ele que se contente em acompanhá-la pela TV. Entrar nos estádios será privilégio da elite, dos estrangeiros e dos que tiverem cacife para comprar ingressos em mãos de cambistas. Aliás, boa parte dos ingressos será vendida antecipadamente na Europa.
A Fifa quer impedir o direito à meia-entrada. Estudantes e idosos, fora! E nada de entrar nos estádios com as empadas da vovó ou a merenda dietética recomendada por seu médico. Até água será proibido.
Todos serão revistados na entrada. Só uma empresa de fast food poderá vender seus produtos nos estádios. E a proibição de bebidas alcoólicas nos estádios, que vigora hoje no Brasil, será quebrada em prol da marca de uma cerveja made in usa.
Comenta o prestigioso jornal Le Monde Diplomatique: "A recepção de um megaevento esportivo como esse autoriza também megaviolação de direitos, megaendividamento público e megairregularidades.”
A Fifa quer, simplesmente, suspender, durante a Copa, a vigência do Estatuto do Torcedor, do Estatuto do Idoso e do Código de Defesa do Consumidor. Todas essas propostas ilegais estão contidas no Projeto de lei 2.330/2011, que se encontra no Congresso. Caso não seja aprovado, o Planalto poderá efetivá-las via medidas provisórias.
Se você fizer uma camiseta com os dizeres "Copa 2014”, cuidado. A Fifa já solicitou ao Inpi (Instituto Nacional de Propriedade Industrial) o registro de mais de mil itens, entre os quais o numeral "2014”.
(Não) durmam com um barulho deste: a Fifa quer instituir tribunais de exceção durante a Copa. Sanções relacionadas à venda de produtos, uso de ingressos e publicidade. No projeto de lei acima citado, o artigo 37 permite criar juizados especiais, varas, turmas e câmaras especializadas para causas vinculadas aos eventos. Uma Justiça paralela!
Na África do Sul, foram criados 56 Tribunais Especiais da Copa. O furto de uma máquina fotográfica mereceu 15 anos de prisão! E mais: se houver danos ou prejuízo à Fifa, a culpa e o ônus são da União. Ou seja, o Estado brasileiro passa a ser o fiador da FIFA em seus negócios particulares.
É hora de as torcidas organizadas e os movimentos sociais porem a bola no chão e chutar em gol. Pressionar o Congresso e impedir a aprovação da lei que deixa a legislação brasileira no banco de reservas. Caso contrário, o torcedor brasileiro vai ter que se resignar a torcer pela TV.

[Frei Betto é escritor, autor de "A arte de semear estrelas” (Rocco), entre outros livros.http://www.freibetto.org- twitter:@freibetto.
Copyright 2011 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Assine todos os artigos do escritor e os receberá diretamente em seu e-mail. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)].


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Missionários combonianos lançam cartilha para reforçar luta contra racismo


Adital
No Ano Internacional dos Povos Afro-descendentes, escolhido pela Organização das Nações Unidas (ONU), e no mês da Consciência Negra, a luta contra o racismo ganha mais um reforço – a cartilha Brasil Negro - Pílulas de aprofundamento para enfrentar o racismo no Brasil, recém-lançada pelo Missionários Combonianos no Brasil Nordeste.
Em formato digital, com linguagem e diagramação leves, a produção de 19 páginas é fruto das reflexões do grupo Ecoos sobre as temáticas História do racismo no Brasilcasos de racismoreflexão sócio-antropológica sobre a prática do racismolegislação e dados sobre a questão racialracismo na dimensão religiosao povo negro e a Bíbliaa beleza afro amada por Deus; e próximos passos para a luta contra o preconceito.
De acordo com o padre Arturo Bonandi, coordenador do Centro de Pastoral Afro "pe. Heitor Frisotti” (Cenpah), com sede em Salvador (BA), o trabalho teve início ainda em junho e os textos foram construídos individualmente, porém a partir de contribuições e debates coletivos.
"A ideia da cartilha surgiu com o ano da ONU e da nossa orientação, como província, de ter como eixo principal Justiça e Paz. Além das atividades que já desenvolvemos e de uma carta que lançamos no início do ano, sentimos a necessidade de tratar o tema, de muita importância, mas que ainda não é bastante debatido no Brasil”, declara pe. Arturo.
Ele avalia que, atualmente, o grande problema enfrentado pela população negra no Brasil é a invisibilidade. "Na política, na mídia e na representação, o negro não aparece. E não aparecer significa que, em questões concretas, é como se o problema do racismo, a realidade, não existisse”, assinala.
Adverte que o problema está entranhado na sociedade brasileira, preconceituosa não apenas com a cor da pele, mas também com as expressões características da cultura afrodescendente. "Há um racismo latente. O negro é discriminado em todos os espaços, são reações quase automáticas na sociedade brasileira”, afirma.
A Igreja, com forte tradição europeia, acaba por se constituir em um desses espaços. "A Igreja adota um rigor Pré-Vaticano II, em que o que está certo são antigas maneiras de celebrar, ligadas à Europa. Os negros têm que deixar a negritude de fora e se adaptar ao estilo imposto há séculos no Brasil e isso é a negação de uma realidade, já que a maioria dos católicos no Brasil é negra, segundo censo”, enfatiza.
Nesse sentido, a cartilha é uma aposta de que encarar o assunto racismo é a melhor saída. "A gente tem que tratar desse tema. O Brasil é institucionalmente racista, há diferença de tratamento entre o descendente europeu e o africano”, disse.
Entre as maneiras de reverter a situação, pe. Arturo aponta formação nas escolas, respeitando-se a lei 10.639/2003, que estabelece que toda a Educação Básica brasileira, na rede pública e privada, deve abordar a história e cultura africana e afro-brasileira.
"Os meios de comunicação também têm que abrir espaço para as expressões culturais e o Governo precisa editar Políticas Públicas para diminuir distâncias históricas na Educação, Saúde e Trabalho”, complementa.
A cartilha Brasil Negro - Pílulas de aprofundamento para enfrentar o racismo no Brasil está disponível no site do Ecoos, no link http://pt.scribd.com/doc/72238611/Cartilha-Racismo-Miss-Combonianos


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

27 DE OUTUBRO DE 2011, CELEBRAÇÃO ECUMÊNICA - ESPÍRITO DE ASSIS, SÃO PAULO


27/10/2011
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Por Moacir Beggo
O Ato Inter-religioso realizado neste 27 de outubro de 2011, no centenário Convento São Francisco, em São Paulo, mostrou com todas as letras que o encontro realizado em Assis, há 25 anos, deixou uma cultura de paz para a humanidade. Ver o presbitério da igreja do Convento tomado por treze lideranças das mais diferentes crenças, religiões e fé foi emocionante. Ao som do trompete do músico José Eduardo Pimentel, o Duda, teve início a procissão das lideranças presentes neste ato.
Com a saudação franciscana de "Paz e Bem", o guardião do Convento, Frei Salésio Hillesheim, que representou o Ministro Provincial Frei Fidêncio Vanboemmel, acolheu a todos, lembrando que o momento era muito mais do que histórico. "É um momento humano. A paz e a justiça não são questões meramente religiosas, mas são da nossa sobrevivência neste nosso mundo e nosso planeta", disse Frei Salésio.
Enquanto em Assis, o Papa Bento XVI renovava o compromisso pela paz, reunindo líderes mundiais, o Definidor da Província da Imaculada Conceição, Frei Mário Tagliari, dava início à celebração no Convento São Francisco, apresentando cada representante das religiões presente no altar: Márcio Henrique de Souza Ramos, representante Curimba Filhos de Umbanda, uma associação dentro da Umbanda; Afonso Moreira Junior, representando a Federação Espírita do Estado de São Paulo; Reverendo Kazuya Nagashima, budista Risho Kossei-Kai do Brasil; Gustavo Pinto, budista da Terra Pura; Monja Coen Sensei é missionária oficial da tradição Soto Shu - Zen Budismo; Shaikh Ahmad Mazloum, da Liga da Juventude Islâmica no Brasil; Sheikh Mohamad Al Bukai, da Liga da Juventude Islâmica do Brasil; Rabino Ruben Sternschein, Congregação Israelita Paulista;  Pastor Matthias Tolsdorf, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil; Reverendo Herbert Rodrigues de Souza, pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil;João Kaimbé, representante do povo Kaimbé de São Paulo; Reverendo Leandro Antunes Campos, da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil; e Dom Edmar Peron, bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo e vigário episcopal da Região de Belém.
Em seguida, teve início os pronunciamentos, sempre intercalados com as belíssimas apresentações musicais das crianças que formam o Grupo Flautista da Liberdade, do Centro Comunitário de Acolhimento da Liberdade, dirigido pela Irmã Miriam Simon, franciscana de Ingolstadt.
Acompanhe os principais trechos dos pronunciamentos:
Márcio Henrique de Souza Ramos, representante Curimba Filhos de Umbanda
Márcio Henrique de Souza Ramos, representante Curimba Filhos de Umbanda
"Se estamos aqui reunidos, temos de buscar essa paz dentro da gente. Ninguém dá o que não tem. Se não estivermos em paz, o que poderemos dar então? Temos que buscar essa paz dentro de nós mesmos. Gandhi já falava 'nós temos que ser a mudança que queremos ver no mundo'. Sou professor. Trabalhei de manhã, cheguei suado aqui, como é próprio de nossa vida atribulada. Mas o mais gratificante para mim é estar com todos aqui, ou quase todas as representações religiosas, porque eu respeito a todas por igual, porque somos a somatória de todas. E o que mais me gratifica é ver as crianças aqui nos bancos da frente. A verdadeira paz vai estar nas mãos delas. E se a gente não souber cultivar essa paz nas mãos dessas crianças, não teremos futuro. Graças a Deus esse futuro está sentado aqui na frente. Um grande axé para todos os presentes!"
Afonso Moreira Junior, representante
da Federação Espírita do
Estado de São Paulo
Afonso Moreira Junior, representante da Federação Espírita do Estado de São Paulo
"Em primeiro lugar, queria agradecer a Igreja Católica que nos acolhe com tanto carinho, com tanto respeito. E a nós, religiosos, através de várias vertentes aqui presentes. E tenham certeza: essa união não é apenas na aparência, mas na sua essência. Pois todos estão aqui irmanados pelo mesmo propósito: trazer a sua modesta contribuição para que a paz se instale na terra. No "Livro dos Espíritos", de Alan Kardec, encontramos Jesus Cristo, o Messias, como nosso modelo e guia. Se houve na Terra alguém que seguiu seus passos de perto, despojando-se de tudo, vencendo o amor próprio, deixando tudo para trás, esse alguém foi certamente o Pobrezinho da Úmbria: Francisco de Assis, que reverenciamos nesta parte, não com o intuito de adoração, pois adoramos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, mas colocamos o Pobrezinho de Assis, nosso irmão querido, como modelo, exemplo, próximo de nós. Que possamos no nosso dia a dia, no nosso local de trabalho, pelas ruas da cidade, levarmos a paz estampada em nossa face. Que sejamos, nesta casa de Deus, um pouquinho de luz, transmitindo onde quer que estejamos a paz dos nossos corações, a partir é claro de nossos próprios lares. Muita paz!"  
Reverendo Kazuya Nagashima, budista Risho Kossei-Kai do Brasil
Reverendo Kazuya Nagashima,
budista Risho Kossei-Kai do Brasil

Na ocasião do grande terremoto que abadou o nordeste do Japão, nós recebemos muito apoio, tanto físico como espiritual, dos católicos e só temos de agradecer profundamente. O terremoto, seguido do tsunami, acrescido do acidente nuclear, deixou marcas profundas nas regiões atingidas, mas ao mesmo tempo se observa que tem aumentado o número de pessoas que querem servir ao próximo, apesar de eles próprios se encontrarem em meio às dificuldades. Tem surgido pessoas que procuram uma nova maneira de viver. A missão dos religiosos deve ser de acreditar nessa luz que se aloja no profundo dessas almas, apoiar essas pessoas e poder guiá-las. Acrescento que as palavras de São Francisco de Assis, na Oração pela Paz, novamente vibraram no coração antes de querer ser consolado que eu console, antes de querer ser compreendido, que compreenda; antes de querer ser amado, que ame; que conceda o poder de fazer isso.

A propósito, qual será o conteúdo da oração pela paz? Nós compreendemos que a oração leva à ação, mas não quero que haja equívocos. A ação dos religiosos não é chamar uma ação que recorra à força. Acredito que ação dos religiosos é sentir Deus e Buda no profundo da alma das pessoas. Ajudar a colocar para fora a luz que se aloja no profundo da alma de todas as pessoas. Em outras palavras, é criar pessoas de paz. Um a um com cuidado e com respeito.

Acredito que a paz individual leva à paz no lar; a paz no lar leva a paz na sociedade; por sua vez a paz na sociedade leva a paz no país e a paz no país leva a paz ao mundo. Mesmo que esse caminho seja longo. Quero aproveitar a oportunidade de fazer mais uma vez, como religioso que sou, a promessa de ir criando pessoas de paz!"
Gustavo Pinto, budista da Terra Pura
Gustavo Pinto, budista da Terra Pura.
"Quero, em primeiro lugar, agradecer ao convite de nossos irmãos católicos que nos estenderam a mão para que estivéssemos todos aqui, reunidos, para o nosso testemunho de paz. Pertencemos a famílias diferentes, mas estamos unidos como irmãos. Os irmãos não são idênticos. Cada um tem a sua identidade. Mas são todos filhos do mesmo pai. E essa luz infinita, que abençoa igualmente a todos nós, independente de credo, de cor, de raça. É essa luz, que abrindo os nossos corações, poderemos no amor, reconhecer que recebemos a paz do céu, para podermos compartilhá-la na terra. Recordo as palavras de Santo Agostinho: "Ama e faze o que quiseres". Se o amor guiar os nossos corações, haverá paz em toda parte. Amar é construir a paz!"
Monja Coen Sensei é missionária oficial da tradição Soto Shu
Monja Coen Sensei é missionária oficial da tradição Soto ShuZen Budismo com sede no Japão e é a Primaz Fundadora da Comunidade Zen Budista, criada em 2001, com sede em Pacaembu.
"Nós estamos aqui, juntos, porque acreditamos na construção de uma cultura de paz. Nós vimos de uma cultura de violência. Futebol, paz no futebol; paz no esporte; paz na vida, na casa. Você briga com sua filha, com sua sogra? Como que fala com seus filhos, com seus vizinhos? A paz não é uma ausência da guerra. É uma coisa que se cultiva no coração. Um coração que reconhece o outro com um aspecto de mim mesmo. É o nós que se manifesta. Não é o eu separado. Não há uma misericórdia separada, de cima para baixo, dentro da visão budista. Mas somos um só corpo e uma só vida com tudo que existe. Irmão Sol Irmã Lua, irmãos com toda grande natureza. Porque agora, se nós não nos unirmos e não trabalharmos juntos, não haverá condição de vida amanhã no planeta. E nós gostamos de viver, não gostamos? Não é boa a vida humana, com seus altos e baixos? Nascimento, velhice, doença e morte? Que bom! Quem é nesta vida que não vai envelhecer? É gostoso envelhecer. O cabelinho fica branco, fica mais difícil as coisas, mas o coração fica mais terno, mais macio, como o fruto que banhado pelo sol quente da sabedoria suprema amadurece o doce e agradável de ser colhido. Esse o coração. Não é o outro e eu. Mas o nós, juntos, construindo, nunca batalhando, nunca lutando, mas construindo uma cultura de paz, de justiça e cura na terra. Como disse Dalai Lama, aqui em São Paulo, não somos nós que vamos dar respostas mas fazemos perguntas. Espero que todos nós, juntos possamos fazer hoje o compromisso de cultivarmos no coração a cultura da paz".
Shaikh Ahmad Mazloum, da Liga da Juventude Islâmica no Brasil, com sede no Pari.
Sheikh Mohamad Al Bukai, da Liga da Juventude Islâmica do Brasil
Shaikh Ahmad Mazloum, da Liga da Juventude Islâmica no Brasil, com sede no Pari.
"Pedimos a paz de Deus e bênção para todos aqueles que enviou como misericórdia para toda a humanidade. Enviou a Noé, a Abraão, a Moisés, a Jesus e a Mohamad. O mulçumano quando fala de paz tem como fonte o livro no qual ele crê. Vocês não devem conhecer muito, mas o muçulmano crê que Deus revelou à humanidade diversas mensagens no decorrer da história, cada qual no seu tempo, na sua época. O muçulmano respeita o Evangelho e, como respeita o Evangelho, crê em outro livro posterior, que é o Alcorão. E Alcorão foi revelado a Mohamad, assim como o Evangelho foi revelado a Jesus. Então, que mensagens de paz nós temos nesses livros? A misericórdia é representada com a paz que cultivamos entre nós. E aí a mensagem, quando estabelecida para o ser humano, é para o bem dele. E uma diretriz básica da paz para o mulçumano, é esta: 'Deus disse ao Profeta, ao Mensageiro: não te enviamos senão como misericórdia para a humanidade'. Não te enviamos para a guerra, para amedrontar as pessoas, mas sim para cultivar a paz. Nós, todos aqui, temos crenças diferentes, e exatamente por isso estamos reunidos aqui a convite das entidades católicas e agradecemos a eles por essa iniciativa. Lembramos hoje a Francisco de Assis, que abandonou o reino dessa vida para o reino da vida eterna, para buscar a paz para os pobres, os menos favorecidos. Então, devemos lembrar dele. Devemos lembrar o que significa estarmos reunidos aqui. Se acredito de forma diferente do meu irmão, que segue outra fé, crença ou religião, a minha fé me ordena que eu cultive a paz, que eu busque entender qual é a crença dele e dialogar com ele. A paz, como já disseram aqui, não é só não guerrear, mas significa  ter o dom de dialogar, de conversar, de abrir os corações, seguindo assim aquilo que é diretriz: não te enviamos senão por misericórdia à humanidade. Mohamad foi enviado como misericórdia, Jesus foi enviado como misericórdia, Moisés é outra misericórdia. Parece que o ser humano precisa renovar essa misericórdia sempre. Por isso, milhares foram enviados para isso. Então, desejo que a paz de Deus esteja com todos aqui presentes, com todas as pessoas que buscam incentivar a paz para os seres humanos, sejam eles pessoas que buscam a paz ou sejam eles diferentes, que têm ideias e crenças diferentes, aqueles que ainda não buscam essa paz e tolerância. Que Deus coloque em seus corações a paz e a tolerância, a misericórdia que o Evangelho e o Alcorão falam. A paz esteja convosco!
Sheikh Mohamad Al Bukai, da Liga da Juventude Islâmica do Brasil
Eu saúdo todos vocês em com nossa saudação: Salamaleque: que a paz de Deus esteja com vocês!
Rabino Ruben Sternschein, Congregação Israelita Paulista
Rabino Ruben Sternschein, Congregação Israelita Paulista
"Saúdo a todos vocês com nosso tradicional ‘Shalom’. Normalmente ouvimos que a paz precisa de concessões, de renúncias. Mas em hebraico, a língua da tradição religiosa que represento, diz-se 'shalom', que significa algo completo, pleno. No passado e hoje, pergunta-se  "como está a sua paz?". Qual é o estado de sua paz? Porque acreditamos que o estado natural para a paz muitas vezes se altera e é responsabilidade de todos devolvê-la. Por isso, o salmo 34, que dividimos com a tradição cristã e com todos que compartilham a Bíblia, diz que aquele que ama a vida e ama o bem é aquele que persegue a paz. Não só adere, quer a paz. Mas persegue a paz e a busca todos os dias. A paz, irmãos e irmãs, é algo que deve ser feito não apenas com o próximo, mas também com o distante, com quem está afastado. Com o diferente. Por isso, o profeta diz: "Paz, paz, para o distante, para o próximo". Esse é o grande desejo. Nós acreditamos que a divindade, qualquer divindade, é paz, harmonia, plenitude. Por isso, em nossas frases, acabamos sempre com uma frase que chama a Deus, aquele que faz a paz nas alturas. Ou seja, aquele que faz a paz no alto. E pedimos que faça a paz aqui embaixo. Eu proponho hoje, no Espírito de Assis, no nosso diálogo fraterno, termos a coragem de invertermos os termos: em vez de invocarmos Deus para que faça paz nas alturas, pedirmos faça paz   aqui embaixo".
Pastor Matthias Tolsdorf, da
Igreja Evangélica de Confissão
Luterana no Brasil
Pastor Matthias Tolsdorf, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil
"Um sou um pastor alemão, mas não mordo (risos)... Refletir sobre a paz, estando inserido nesta cidade de São Paulo, em que nós somos marcados pela ansiedade por uma paz, pela preocupação com a segurança pública, com a nossa integridade física, talvez por isso, o tema escolhido por minha igreja para reflexão de todas as comunidades luteranas: "Paz na criação de Deus". A paz é um presente de Deus, que na nossa compreensão temos que tornar concreto. É uma promessa de Deus que temos de tornar visível e palpável no nosso cotidiano. Quando eu visito famílias, que pertencem a nossa comunidade, percebo uma falta de paz justamente ligada a divergências religiosas. Muitas vezes até disputa religiosa, para não chamar uma batalha, dentro de uma mesma família, impossibilitando a convivência entre as pessoas. Fico sempre muito triste quando vejo isso. E por isso todos vocês, que demonstram interesse pela paz, deveriam sair daqui como formadores de opinião, com o compromisso de se engajarem pela paz no meio onde vivem. É trabalho árduo, mas recompensador".
Reverendo Herbert Rodrigues de Souza, pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil.
Reverendo Herbert Rodrigues de Souza, pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil.
"Quando se pensa sobre a paz, acho que devemos ir um pouco além de discursos. A fala é importante, mas a fala só toca o nosso intelecto e é preciso  tocar principalmente o nosso coração. E já que o tema é para uma cultura de paz, quando se fala de uma cultura, vamos além de pensamentos, mas estamos pensando também em ações, sistemas, modo de vida, modo de visão. Lembro de uma expressão que está no Evangelho: aquilo que não gostaria que fizessem com você, não faça com os outros. Quando se pensa a paz nessa perspectiva, vamos além de pensamentos. Vamos além de falas e discursos. Assim começamos a promover a paz, não só através de gestos, mas de ações concretas. Por isso, precisamos pensar a paz também em outra perspectiva: quando se trata daquele que é diferente de nós. Já que queremos falar de paz em todos os âmbitos, onde começa a intolerância dentro de nós? Como é que vejo aquele que é diferente na cor da pele? Como é  que encaro aquele que tem a orientação sexual diferente da minha?  Como é aquele que torce para o outro time? Se queremos promover a paz, precisamos pensar nessas perspectivas, pensar nessas pequenas coisas que fazem parte do nosso dia a dia. E quando, então, nos propomos a viver a paz, vamos diminuir o grau de intolerância, vamos nos abrir uns aos outros. A paz esteja conosco!"
João Kaimbé, representante do
povo Kaimbé de São Paulo
João Kaimbé, representante do povo Kaimbé de São Paulo
"Os índios hoje no Brasil não têm paz. Por isso, me sinto muito honrado de estar aqui com vocês. Aqui em São Paulo há oito mil índios, que sofrem discriminação de todo o tipo. Por isso deixo aqui o meu protesto e vou passar para os meus parentes buscarem a paz".
Reverendo Leandro Antunes Campos, da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil e participo do Diálogo Inter-religioso das Igreja Católica Romana e Anglicana.
Reverendo Leandro Antunes Campos, da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil e participo do Diálogo Inter-religioso das Igreja Católica Romana e Anglicana.
"O caminho da paz é a gente que faz'. Ao meditar sobre essa frase e torná-la oração, me veio à mente a passagem de São Paulo aos Coríntios, quando fala que vai ensinar um caminho que é o mais excelente de todos os caminhos. E começa aquele hino ao amor. É importante refletir sobre o amor. O próprio apóstolo João fala que Deus é amor. E se sabemos viver plenamente o amor, então posso dizer que Deus está em você, porque Deus é amor. Essa é uma grande afirmação de fé. E, com coragem, respondemos a essa afirmação quando deixamos o amor de Deus habitar em nós e transformar radicalmente as nossas vidas e as nossas relações, sejam elas pessoais ou políticos. É preciso deixar se transformar pelo amor de Deus. O amor não se alegra com a injustiça. O amor folga em alegria com quem é justo, com quem fala a verdade, com quem vive a paz".
Dom Edmar Peron, bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo e vigário episcopal da Região de Belém
Dom Edmar Peron, bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo e vigário episcopal da Região de Belém
"Caros representantes das famílias religiosas e da comunidade franciscana que nos acolhe. Queridos irmãos e irmãs, com a palavra do apóstolo Paulo saúdo a todos: que a graça e a paz de Deus estejam com vocês!.

Nosso encontro é profecia e não se restringe ao nosso grupo reunido, mas se alarga pelo mundo inteiro. Colocam-se como 'Peregrinos da verdade, peregrinos da paz'. Trago a vocês também as saudações de Dom Odilo Pedro Scherer, cardeal arcebispo de São Paulo, que não podendo estar aqui, pediu que viesse a esse encontro, que é profecia da comunhão entre nossos irmãos e irmãs. O 'Creio' dos cristãos professa ser Deus o Pai, o  Criador de tudo que vemos e daquilo que não enxergamos. Essa fé encontra suas raízes já na experiência do povo de Israel e, no entanto, tu és o nosso Pai. Nós somos a argila, e tu o nosso leito. Todos nós somos obras de tuas mãos. Assim, a fraternidade que reina entre nós, membros de diferentes confissões religiosas, profetizam ao mundo que somos filhos e irmãos. Somos todos uma família. Nosso encontro é profecia daquele mundo novo em que a paz insiste em renascer a cada dia sob o sol da esperança, que faz o povo das ruas sorrir e a roseira florir, como diz o canto. Esse mundo novo construído de pequenos gestos em favor da vida, manifestado na indignação dos jovens, nos gestos de cuidado para com o morador de rua, para com uma criança, um idoso, na nascente manifestação contra a corrupção que vimos no dia 12 de outubro ou na acolhida de quem chega a São Paulo procurando melhores condições para viver. Enfim, os sonhos e as realidades nos conduzem, e devem ainda mais conduzir a ações criativas e concretas. Aquelas que já são cotidianamente realizadas e muitas outras novas iniciativas que poderão ainda surgir. É preciso sonhar, para realizar esses gestos de fraternidade, de justiça e, portanto, de paz. A paz esteja com vocês!"


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Quarenta anos da Teologia da Libertação


Quarenta anos da Teologia da Libertação

09/08/2011
por Leonardo Boff
Teologia da Libertação celebra neste ano de 2011 40 anos de existiencia. Em 1971 Gustavo Gutiérrez publicana no Peru seu livro fundador “Teologia da Libertação.Perspectivas”. Eu publicava também em 1971 em forma de artigos, numa revista de religiosas – Grande Sinal – para escapar da repressão militar o meu Jesus Cristo Libertador, depois lançado em livro. Ninguém sabia um do outro. Mas estávamos no mesmo espírito. Desde então surgiram três gerações de teólogos e teólogas que se inscrevem dentro da Teologia da Libertação. Hoje ela está em todos os continentes e representa um modo diferente de fazer teologia, a partir dos condenados da Terra e da periferia do mundo.Aqui vai um pequeno balanço destes 40 anos de prática e de reflexão libertadoras.
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A Teologia da Libertação participa da profecia de Simeão a respeito do menino (Jesus): ela será motivo de queda e de elevação, será um sinal de contradição (Lc 2,34). Efetivamente a Teologia da Libertação é uma teologia incomprendida, difamada, perseguida e condenada pelos poderes deste mundo. E com razão. Os poderes da economia e do mercado a condenam porque cometeu um crime para eles intolerável: optou por aqueles que estão fora do mercado e são zeros econômicos. Os poderes eclesiásticos a condenaram por cair numa “heresia”prática ao afirmar que o pobre pode ser construtor de uma nova sociedade e também de outro modelo de Igreja. Antes de ser pobre, ele é um oprimido ao qual a Igreja deveria sempre se associar em seu processo de libertação. Isso não é politizar a fé mas praticar uma evangelilzação que inclui também o político. Consequentemente, quem toma partido pelo pobre-oprimido sofre acusações e marginalizações por parte dos poderosos seja civis, seja religiosos.
Por outro lado, a Teologia da Libertação representa uma benção e uma boa nova para os pobres. Sentem que não estão sós, encontraram aliados que assumiram sua causa e suas lutas. Lamentam que o Vaticano e boa parte dos bispos e padres construam no canteiro de seus opressores e se esquecem que Jesus foi um operário e pobre e que morreu em consequência de suas opções libertárias a partir de sua relação para com o Deus da vida que sempre escuta o grito dos oprimidos.
De qualquer forma, numa perspectiva espiritual, é para um teólogo e uma teóloga comprometidos e perseguidos uma honra participar um pouco da paixão dos maltratados deste mundo.

1. A centralidade do pobre e do oprimido
O punctum stantis et cadentis da Teologia da Libertação é o pobre concreto, suas opressões, a degradação de suas vidas e os padecimentos sem conta que sofre. Sem o pobre e o oprimido não há Teologia da Libertação. Toda opressão clama por uma libertação. Por isso, onde há opressão concreta e real que toca a pele e faz sofrer o corpo e o espírito ai tem sentido lutar pela libertação. Herdeiros de um oprimido e de um executado na cruz, Jesus, os cristãos encontram em sua fé mil razões por estarem do lado dos oprimidos e junto com eles buscar a libertação. Por isso a marca registrada da Teologia da Libertação é agora e será até o juizo final: a opção pelos pobres contra sua pobreza e a favor de sua vida e liberdade.
A questão crucial e sempre aberta é esta: como anunciar que Deus é Pai e Mãe de bondade num mundo de miseráveis? Este anúncio só ganhará credibilidade se a fé cristã ajudar na libertação da miséria e da pobreza. Então tem sentido dizer que Deus é realmente Pai e Mãe de todos mas especialmente de seus filhos e filhas flagelados.
Como tirar os pobres-oprimidos da pobreza, não na direção da riqueza, mas da justiça? Esta é uma questão prática de ordem pedagógico-política. Identificamos três estratégias.
A primeira interpreta o pobre como aquele que não tem. Então faz-se mister mobilizar aqueles que têm para aliviar a vida dos que não têm. Desta estratégia nasceu o assistencialismo e o paternalismo. Ajuda mas mantém o pobre dependente e à mercê da boa vontade dos outros. A solução tem respiração curta.
A segunda interpreta o pobre como aquele que tem: tem força de trabalho, capacidade de aprendizado e habilidades. Importa formá-lo para que possa ingressar no mercado de trabalho e ganhar sua vida. Enquandra o pobre no processo produtivo, mas sem fazer uma crítica ao sistema social que explora sua força de trabalho e devasta a natureza, criando uma sociedade de desiguais, portanto, injusta. É uma solução que ajuda favorece o pobre, mas é insuficiente porque o mantém refém do sistema, sem libertá-lo de verdade.
A terceira interpreta o pobre como aquele que tem força histórica mas força para mudar o sistema de dominação por um outro mais igualitário, participativo e justo, onde o amor não seja tão difícil. Esta estratégia é libertária. Faz do pobre sujeito de sua libertação. A Teologia da Libertação, na esteira de Paulo Freire, assumiu e ajudou a formular esta estratégia. É uma solução adequada à superação da pobreza. Esse é o sentido de pobre da Teologia da Libertação.
Só podemos falar de libertação quando seu sujeito principal é o próprio oprimido; os demais entram como aliados, importantes, sem dúvida, para alargar as bases da libertação. E a Teologia da Libertação surge do momento em que se faz uma reflexão crítica à luz da mensagem da revelação desta libertação histórico-social.

2.Teologia da Libertação e movimentos por libertação
Entretanto, só entenderemos adequadamente a Teologia de Libertação se a situarmos para além do espaço eclesial e dentro do movimento histórico maior que varreu as sociedades ocidentais no final dos anos 60 do século passado. Um clamor por liberdade e libertação tomou conta dos jovens europeus, depois norte-americanos e por fim dos latino-americanos.
Em todos os âmbitos, na cultura, na política, nos hábitos na vida cotidina derrubaram-se esquemas tidos por opressivos. Como as igrejas estão dentro do mundo, membros numerosos delas foram tomados por este Weltgeist. Trouxeram para dentro das Igrejas tais anseios por libertação. Começaram a se perguntar: que contribuição nós cristãos e cristãs podemos dar a partir do capital específico da fé cristã, da mensagem de Jesus que se mostrou, segundo os evangelhos, libertador? Esta questão era colocada por cristãos e cristãs que já militavam politicamente nos meios populares e nos partidos que queriam a transformação da sociedade.
Acresce ainda o fato de que muitas Igrejas traduziram os apelos do Concilio Vaticano II de abertura ao mundo, para o contexto latinoamericano, como abertura para o sub-mundo e uma entrada no mundo dos pobres-oprimidos. Deste impulso, surgiram figuras proféticas, nasceram as CEBs, as pastorais sociais e o engajamento direto de grupos cristãos em movimentos políticos de libertação. Para muitos destes cristãos e cristãs e mesmo para uma significativa porção de pastores não se tratava mais de buscar o desenvolvimento. Este era entenddo como desenvolvimento do subdsenvolvimento, portanto, como uma opressão. Demandava, portanto, um projeto de libertação.
Portanto, a Teologia da Libertação não caiu do céu nem foi inventada por algum teólogo inspirado. Mas emergiu do bojo desse movimento maior mundial e latino-americano, por um lado político e por outro eclesial. Ela se propôs pensar as práticas eclesiais e políticas em curso à luz da Palavra da Revelação. Ela comparecia como palavra segunda, crítica e regrada, que remetia à palavra primeira que é a prática real junto e com os oprimidos. Alguns nomes seminais merecem ser aqui destacados que, por primeiro, captaram a relevância do momento histórico e souberam encontrar-lhe a fórmula adequada, Teologia da Libertação: Gustavo Gutiérrez do Peru, Juan Luiz Segundo do Uruguai, Hugo Asmann do Brasil e Enrique Dussel e Miguez Bonino, ambos da Argentina. Esta foi a primeira geração. Seguiram-se outras.

3. Os muitos rostos dos pobres e oprimidos
A Teologia da Libertação partiu diretamente dos pobres materiais, das classes oprimidas, dos povos desprezados como os indígenas, negros marginalizados, mulheres submetidas ao machismo, das religiões difamadas e outros portadores de estigmas sociais. Mas logo se deu conta de que pobres-oprimidos possuem muitos rostos e suas opressões são, cada vez, específicas. Não se pode falar de opressão-libertação de forma generalizada. Importa qualificar cada grupo e tomar a sério o tipo de opressão sofrida e sua correspondente libertação ansiada.
Desmascarou-se o sistema que subjaz a todas estas opressões, construido sobre o submetimento dos outros e da depredação da natureza. Dai a importância do diálogo que a Teologia da Libertação conduziu com a economia políica capitalista. De grande relevância crítica foi a releitura da história da América Latina a partir das vítimas, desocultando a perversidade de um projeto de invasão coletivo no qual o colono ou o militar vinha de braço dado com o missionário. Esse casamento incestuoso produziu, segundo o historiador Oswald Spengler, o maior genocídio da história. Até hoje nem as potências outrora coloniais nem a Igreja institucional tiveram a honradez de reconhecer esse crime histórico, muito menos de fazer qualquer gesto de reparação.
Sem entrar em detalhes, surgiram várias tendências dentro da mesma e única Teologia da Libertação: a feminista, a indígena, a negra, a das religiões, a da cultura, a da história e da ecologia. Logicamente, cada tendência se deu ao trabalho de conhecer de forma crítica e científica seu objeto, para poder retamente avaliá-lo e atuar sobre ele de forma libertadora à luz da fé.

4. Como fazer uma teologia de libertação
Aqui cabe uma palavra sobre o como fazer uma teologia que seja libertadora, quer dizer, cabe abordar o método da Teologia da Libertação. O método seja talvez uma de suas contribuições mais notáveis que este modo de fazer teologia trouxe ao quefazer teológico universal. Parte-se antes de mais nada de baixo, da realidade, a mais crua e dura possível, não de doutrinas, documentos pontifícios ou de textos bíblicos. Estes possuem a função de iluminação mas não de geração de pensamento e de práticas.
Face à pobreza e à miséria, a primeira reação foi, tipicamente, jesuânica, a do miserior super turbas, de compaixão que implica transportar-se à realidade do outro e sentir sua paixão. É aqui que se dá uma verdadeira experiência espiritual de encontro com aqueles que Bartolomeu de las Casas no México e Guamán Poma de Ayala no Peru chamavam de os Cristos flagelados da história. Há um encontro de puro espírito com o Cristo crucificado que quer ser baixado da cruz. Esta experiência espiritual de compaixão só é verdadeira se der origem a um segundo sentimento o de iracundia sagrada que se expessa: “isso não pode ser, é inaceitável e condenável; deve ser superado”.
Destes sentimentos surge imediatamente a vontade de fazer alguma coisa. É nesse momento que entra a racionalidade que nos ajuda a evitar enganos, fruto da boa vontade mas sem crítica. Sem análise corre-se o risco do assistencialismo e do mero reformismo que acabam por reforçar o sistema. O conhecimento dos mecanismos produtores da pobreza-opressão nos mostra a necesidade de uma transformação e libertação, portanto de algo novo e alternativo. Em seguida, buscam-se as mediações concretas que viabilizam a libertação, sempre tendo como protagonista principal o próprio pobre. Aqui entra a funcionar outra lógica, aquela das metas, das táticas e estratégias para alcançá-las, das alianças com outros grupos de apoio e da avaliação da correlação de forças, do juizo prudencial acerca da reação do sistema e de seus agentes e da possibilidade real de avanço. Alcançada a meta, vale a celebração e a festa que congraçam as pessoas, lhes conferem sentimento de pertença e do reconhecimento da própria força transformadora. Então constatam empiricamente que um fraco mais um fraco não são dois fracos, mas um forte, porque a união faz a força histórica transformadora.
Resumindo: estes são os passos metodológicos da Teologia a Libertação: (1) um encontro espiritual, vale dizer, uma experiência do Crucificado sofrendo nos crucificados. (2) uma indignação ética pela qual se condena e rejeita tal situação como desumana que reclama superação;(3) um ver atento que implica uma análise estrutural dos mecanismos produtores de pobreza-opressão; (4)um julgar crítico seja aos olhos da fé seja aos olhos da sã razão sobre o tipo de sociedade que temos, marcada por tantas injustiças e a urgência de transformá-la; (5) um agir eficaz que faz avançar o processo de libertação a partir dos oprimdiso; (5) um celebrar que é um festejar coletivo das vitórias alcançadas.
Esse método é usado na linguagem do cotidiano seja pelos meios populares que se organizam para resistir e se libertar, seja pelos grupos intermediários dos agentes de pastoral, de padres, bispos, religiosos e religiosas e leigos e leigas cujo discurso é mais elaborado, seja pelos próprios teólogos que buscam rigor e severidade no discurso.

5. Contribuições da Teologia da Libertação para a teologia universal
A Teologia da Libertação, por causa da perspectiva dos pobres que assumiu, revelou dimensões diferentes e até novas da mensagem da revelação. Em primeiro lugar, ela propiciou a reapropriação da Palavra de Deus pelos pobres. Em suas comunidades e círculos bíblicos aprenderam comparar página da Bíblia com a página da vida e dai tirar consequências para sua prática cotidiana. Lendo os Evangelhos e se confrontando com o Jesus de Nazaré, artesão, factotum e campones mediterrâno, perceberam a contradição entre a condição pobre de Jesus e a riqueza da grande instituição Igreja. Esta está mais próxima do palácio de Herodes do que da gruta de Belém. Com respeito aprenderam a fazer suas críticas ao exerício centralizado do poder na Igreja e ao fechamento doutrinal face a questões importantes para a sociedade como é a moral familiar e sexual.
A Teologia da Libertação nos fez descobrir Deus como o Deus da vida, o Pai e Padrinho dos pobres e humildes. A partir de sua essência, como vida, se sente atraido pelos que menos vida têm. Deixa sua transcendência e se curva para dizer:”ouvi a opressão de meu povo…desci para libertá-lo”(Ex 3,7). A opção pelos pobres encontra seu fundamento na própria natureza de Deus-vida.
Revelou-nos também a Jesus como libertador. Ele é libertador, não porque assim o chamam os teólogos da libertação, mas por causa do testemunho dos Apóstolos. Ele libertou do pecado mas também da doença, da fome e da morte. Jesus não morreu. Foi assassinado porque viveu uma prática libertária que ofendia as convenções e tradições da época. Anunciou uma proposta – o Reino de Deus – que implicava uma revolução em todas as relações; não apenas entre Deus e os seres humanos, mas também na sociedade e nos cosmos. O Reino de Deus se contrapunha ao Reino de César, o que representava um ato político de lesa-majestade. O Imperador revindicava para si o título de Deus e até de “Deus de Deus”, coisa que o credo cristão mais tarde atribuirá a Cristo. A ressurreição, ao lado de outros significados, emerge como a inauguração do “novissimus Adam”(1Cor 15,45), como uma “revolução na evolução”.
Permitiu-nos identificar em Maria, não apenas aquela humilde serva do Senhor que diz fiat mas a profetiza que clama pelo Deus Go’El, o vingador dos injustiçados, aquele que derruba dos tronos os poderosos e eleva os humildes (Lc 1, 51-52). Ela clarificou também a missão da Igreja que é atualizar permanentemente, para os tempos e lugares diferentes, a gesta libertadora de Jesus e manter vivo seu sonho de um Reino de Deus que começa pelos últimos, os pobres e excluidos e que se estende até à criação inteira será finalmente resgatada, onde vige a justiça, o amor incondicional, o perdão e a paz perene.

6. A Teologia da Libertação como revolução espiritual
As reflexões que acabamos de fazer nos permitem dizer: a Teologia da Libertação produziu uma revolução teológico-espiritual. Não houve muitas revoluções espirituais no Cristianismo. Mas sempre que elas ocorrem, se resignificam os principais conteúdos da fé, como assinalamos acima, emerge uma nova vitalidade e a mensagem cristã libera dimensões insuspeitadas, gerando vida e santidade.
É a primeira teologia histórica que nasceu na periferia do cristianismo e distante dos centros metropolitanos de pensamento. Ela denota uma maturação inegável das Igrejas-filhas que conseguem articular, com sua linguagem própria, a mensagem cristã, sem romper a unidade de fé e a comunhão com as Igrejas-mães.
Nunca na história do cristianismo os pobres ganharam tanta centralidade. Eles sempre estiveram ai na Igreja e foram destinatários dos cuidados da caridade cristã. Mas aqui se trata de um pobre diferente, que não quer apenas receber mas dar de sua fé e inteligência. Trata-se do pobre que pensa, que fala, que se organiza e que ajuda a construir um novo modelo de Igreja-rede-de-comunidades. Os pastores de estilo autoritário não temem o pobre que silencia e obedece. Mas tremem diante do pobre que pensa, fala e participa na definição de novos rumos para a comunidade. São cristãos com consciência de sua cidadania eclesial.
A irradiação da Teologia da Libertação alcançou o aparelho central da Igreja Católica, o Vaticano. Influenciadas pelos setores mais conservadores da própria Igreja latinoamericana e das elites políticas conservadoras, as instâncias doutrinárias sob o então Card. Joseph Ratzinger reagiram, em 1984 e 1986, com críticas contra a Teologia da Libertação.
Mas se bem repararmos, não se fazem condenações cerradas. Tais autoridades chamam a atenção para dois perigos que acossam este tipo de teologia: a redução da fé à política e o uso não-crítico de categorias marxistas. Perigos não são erros. Evitados, eles deixam o caminho aberto e nunca invalidam a coragem do pensamento criativo. Apesar das suspeitas e manipulações que se fizeram destes dois documentos oficiais, a Teologia da Libertação pôde continuar com sua obra.
Por esta razão entendemos que o Papa João Paulo II, com mais espírito pastoral que doutrinal, tenha enviado uma Mensagem ao Episcopado do Brasil no dia 6 de abril de 1986 na qual declara que esta a Teologia da Libertação, em condições de opressão, “não é somente útil mas também necessária”.
Mas sobre a figura do então Card. Joseph Ratzinger pesa uma acusação irremissivel, que seguramente passará negativamente para a história da teologia: a de ter-se revelado inimigo da inteligência dos pobres e de seus aliados e de ter condenado a primeira teologia surgida na periferia da Igreja e do mundo que conferia centralidade à dignidade dos oprimidos.
Efetivamente, proibiu que mais de cem teólogos de todo o Continente elaborassem uma coleção de 53 tomos- Teologia e Libertação – como subsídio a estudantes e a agentes de pastoral que atuavam na perspectiva dos pobres. Mais que um erro de governo, foi um delito contra a eclesialidade e um escárneo aos pobres pelos quais deverá responder diante de Deus. Também para ele vale o dito: na tarde sua vida, os pobres serão seus juizes dos quais esperamos que tenham para com o Cardeal mais misericórdia que severidade, diante de tanta ignorância e arrogância de quem se poderia esperar apoio entusiasmado e acompanhamento diligente.
Ao contrário, muitos teólogos foram postos por ele sob vigilância, advertidos, marginalizados em suas comunidades, acusados, proibidos de exercer o ministério da palavra, afastados de suas cátedras ou submetidos a processos doutrinários com “silêncio obsequioso”. Esta rigidez não dminuiu ao fazer-se Papa, mas continuou com renovado fervor. Et est videre miseriam.
A Teologia da Libertação devolveu dignidade e relevância à tarefa da Teologia. Conferiu-lhe um inegável caráter ético. Os teólogos desta corrente, sem renunciar ao estudo e à pesquisa, se associaram à vida e a causa dos condenados da Terra. No apoio a seus movimentos correram riscos. Muitos conheceram a prisão, a tortura e outros o martírio. Ousamos dizer que a Teologia da Libertação junto com a Igreja da Libertação que lhe subjaz é um dos poucos movimentos eclesiais que no século XX conheceu o martírio, curiosamente praticados por cristãos repressores, atingindo leigos e leigas, religosas e religiosos, pastores, teólogos e teólogas não poupando mesmo bispos como Dom Angelelli da Argentina e Dom Oscar Arnulfo Romero de El Salvador. É o sinal da verdade desta opção pelos pobres.
Por fim, a Teologia da Libertação chama as demais teologias à sua responsabilidade social no sentido de colaborarem na gestação de um mundo mais justo e fraterno. Sua missão não se esgota numa diligência ad intra, ao espaço eclesial. Se ela não quiser escapar da indiferença e do cinismo deve se deixar mover pelo grito dos oprimidos que sobe das entranhas da Terra. Poucos são os que escutam esse clamor. Uma teologia que silencia diante do tragédia dos milhõs de famélicos e condenados a morrer antes do tempo, não tem nada a dizer sobre Deus ao mundo.

7. A Teologia da Libertação como revolução cultural
Por fim, a Teologia não representou apenas uma revolução espiritual. Ela significou também uma revolução cultural. Contribuiu para que os pobres ganhassem visibilidade e consciência de suas opressões. Gestou cristãos que se fazeram cidadãos ativos e a partir de sua fé se empenharam em movimentos sociais, em sindicatos e em partidos no propósito de dar corpo a um sonho, que tem a ver com o sonho de Jesus, o de construir uma convivência social na qual o maior número possa participar e todos juntos possam forjar um futuro bom para a humanidade e para a natureza.
É mérito da Igreja da Libertação com sua Teologia da Libertação subjacente ter contribuido decididamente na construção do Partido dos Trabalhadores, do Movimento dos Sem Terra, do Conselho Indigenista Missionário, da Comissão da Pastoral da Terra, da Pastoral da Criança, dos Hansenianos e dos portadores do virus HIV que foram os instrumentos para praticar a libertação e assim realizar os bens do Reino. Aqui o cristianismo mostrou e mostra a primazia da ortopraxis sobre a ortodoxia e a importância maior das práticas sobre as prédicas.
Nascida na América Latina, esta teologia se expandiu por todo o terceiro mundo, na Africa, na Asia, especialmente naquelas Igrejas particulares que penetraram no universo dos pobres e oprimdos e em movimentos dos paises centrais ligados à solidariedade internacional e ao apoio às lutas dos oprimidos, na Europa e nos Estados Unidos. De forma natural, ela se associou ao Forum Social Mundial e encontrou lá visibilidade e espaço de contribuição às grandes causas vinculadas ao um outro mundo possível e necessário, articulando o discurso social com o discurso da fé.
Em todas as questões abordadas, a preocupação é sempre essa: como vai a caminhada dos pobres e dos oprimdos no mundo? Como avança o Reino com seus bens e que obstáculos encontra pela frente, vindos da própria instituição eclesial, não raro tardia em tomar posições e insensível aos problemas do homem da rua e aqueles derivados principalmente das estratégias dos poderosos, decididos em manter invisíveis e silenciados os oprimidos para continuarem sua perversa obra de acumulação e dominação.

8. O futuro da Teologia da Libertação
Que futuro tem e terá a Teologia da Libertação? Muitos pensam e lhe interessa pensar assim que ela é coisa dos anos 70 do século passado e que já perdeu atualidade e relevância. Só mentalidades cínicas podem alimentar tais desejos, totalmente alienadas com o que passa com o planeta Terra e com o destino dos pobres no mundo. O desafio central para o pensamento humanitário e para a Teologia da Libertação é exatamente o crescente aumento do número de pobres e o acelerado aquecimento global e a opressão dos pobres. Lamentavelmente, cada vez menos pessoas, grupos e igrejas estão dispostos a ouvir seu clamor canino que se dirige ao céu. Uma Igreja e uma teologia que se mostram insensíveis a esta paixão se colocam a quilômetros luz da herança de Jesus e da libertação que ele anunciou e antecipou.
A Teologia da Libertação não morreu. Ela é atualmente mais urgente do que quando surgiu no final dos anos 60 do século XX. Apenas ficou mais invisível pois saiu do foco das polêmicas que interessam a opinião pública. Enquanto existirem neste mundo pobres e oprimidos haverá pessoas, cristãos e Igrejas que farão suas as dores que afligem a pele dos pobres, suas as angústias que lhes entristecem a alma e seus os golpes que lhes atingem o coração. Estes atualizarão os sentimentos que Jesus teve para com a humanidade sofredora.
No contexto atual de degradação da Mãe Terra e da devastação continuada do sistema-vida, a Teologia da Libertação entendeu que dentro da opção pelos pobres deve incluir maximamente a opção pelo grande pobre que é o Planeta Terra.
Ele é vítima da mesma lógica que explora as pessoas, subjuga as classes, domina as nações e devasta a natureza. Ou nos libertamos desta lógica perversa ou ela nos poderá levar a uma catástrofe social e ecológica de dimensões apocalípticas, não excluída a possibilidade até da extinção da espécie humana. A inclusão desta problemática, quiça, a mais desafiante de nosso tempo, fez nascer uma vigorosa Ecoteologia da Libertação. Ela se soma a todas as demais iniciativas que se empenham por um outro paradigna de relação para com a natureza, com outro tipo de produção e com formas mais sóbrias e solidárias de consumo.
Que futuro tem a Teologia da Libertação? Ela tem o futuro que está reservado aos pobres e oprimidos. Enquanto estes persistirem há mil razões para que haja um pensamento rebelde, indignado e compassivo que se recusa aceitar tal crueldade e impiedade e se empenhará pela libertação integral.
Ela não terá lugar dentro do atual sistema capitalista, máquina produtora de pobreza e de opressão. Ela só poderá existir na forma de resistência, sob perseguições, difamações e martírios. Mesmo assim, porque nenhum sistema é absolutamente fechado, ela poderá colocar cunhas por onde o pobre e o oprimido construirão espaços de liberdade. Por isso, a Teologia da Libertação possui uma clara dimensão política: ela quer a mudança da sociedade para que nela se possam realizar os bens do Reino e os seres humanos possam conviver como cidadãos livre e participantes.
Que futuro tem a Teologia da Libertação denro do tipo de Igreja-instituição que possuimos? Mantido o atual sistema, cujo eixo estruturador é a sacra potestas, o poder sagrado, centralizado somente na hierarquia, ela só poderá ser uma teologia no cativeiro e relegada à marginalidade. Ela é disfuncional ao pensamento oficial e ao modo como a Igreja se organiza hierarquicamente: de um lado o corpo clerical que detém o poder sagrado, a palavra e a direção, e do outro, o corpo laical, sem poder, obrigado a ouvir e a obedecer. Na esteira do Concílio Vaticano II, a Teologia da Libertação se baseia num conceito de Igreja comunhão, rede de comunidades Povo de Deus e poder sagrado como serviço.
Esta visão de Igreja foi nos últimos decênios praticamente anulada por uma política curial de volta à grande disciplina e pelo reforço à estrutura hierárquica de orgnização eclesial.
Assim se fecharam as portas à conciliação tentada pelo Concílio Vaticano II entre Igreja Povo de Deus e Igreja Hierárquica, entre Igreja-poder e Igreja-comunhão. O difícil equilíbrio alcançado foi logo rompido ao se entender a comunhão como comunhão hierárquica, o que anula o conteúdo inovador deste conceito que supõe a participação equânime de todos e a hierarquia funcional de serviços e não a hiierarquia ontológica de poderes. A burocracia vaticana e os Papas Wojtyla e Ratzinger nterpretaram o Vaticano II à luz do Vaticano I centralizando novamente a Igreja ao redor do poder do Papa e esvaziando os poucos órgãos de colegialidade e participação.
Não devemos ocultar o fato de que ao optar pelo poder a Igreja institituição optou pelos que também têm poder, numa palavra, os ricos. Os pobres perderam centralidade. A eles está reservada a assistência e a caridade que nunca faltaram. Mas quem opta pelo poder fecha as portas e as janelas ao amor e à misericórdia. Lamentavelmente ocorreu com o atual modelo de Igreja, burocrático, frio e nas questões concernentes à sexualidade, a homoafetividade, à AIDS e ao divórcio, sem misericórdia e humanidade.
Nestas condições, não há como fazer uma Teologia da Libertação como um bem da Igreja local e universal que toma a sério a questão dos pobres e da justiça social. Ela subverte a ordem estabelecida das coisas. Seu destino será a deslegitimação e a perseguição. Não será exagero dizer que ela vive e viveu o seu mistério pascal: sempre rejeitada, sempre sepultada e também sempre de novo ressuscitada porque o clamor dos pobres não permite que ela morra.
Mas na Igreja instituição, apesar de suas graves limitações, sempre há pessoas, homens e mulheres, padres, religiosos e religiosas e bispos que se deixam tocar pelos crucificados da história e se abrem ao chamado do Cristo libertador. Não apenas socorrem os pobres mas se colocam do lado deles e com eles caminham buscando formas alternativas de viver e de expressar a fé.
Qual o futuro da Teologia da Libertação? Ecumênica desde seus inícios, ela vicejará naquelas Igrejas que se remetem ao Jesus dos evangelhos, àquele que proclamou benaventurados os pobres e que se encheu de compaixão pelo povo faminto e que, num gesto de libertação, multiplicou os pães e os peixes. Estas Igrejas ou porções delas, ousadamente mantem a opção pelos pobres contra a sua pobreza. Entenderão esta opção como um imperativo evangélico e a forma, talvez a mais convincente, de preservar o legado de Jesus e de atualizá-lo para os nossos tempos.

9.Onde encontrar hoje a Teologia da Libertação
Qual será o futuro da Teologia da Libertação? Está em seu presente. Ela continua viva e cresce, com caráter ecumênico, na leitura popular da Bíblia, nos círculos bíblicos, nas comunidades eclesiais de base, nas pastorais sociais, no movimento fé e política e nos trabalhos pastorais nas periferias das cidades e nos interiores do paises. Neste nivel e por sua natureza ecumênica e popular esta teologia, de certa forma, escapa da vigilância das autoridades doutrinárias.
Ela é a teologia adequada àquelas práticas que visam a transformação social e a gestação de um outro modo de habitar a Terra. Se alguém quiser encontrar a Teologia a Libertação não vá às faculdades e institutos de teologia. Ai encontrará fragmentos e poucos representantes. Mas vá às bases populares. Ai é seu lugar natural e ai viceja vigorosamente. Ela está reforçando o surgimento de um outro modelo de Igreja mais comunitário, evangélico, participativo, simples, dialogante, espiriual e encarnado nas culturas locais que lhe conferem um rosto da cor da população, em nosso caso, indio-negro-latinoamericano.
Alçando a vista numa perspectiva universal, tenho uma como que visão. Vejo a multidão de pobres, de mutilados, aqueles que o Apocalipse chama “de sobreviventes da grande tribulação” (7,14) cujas lágrimas são enxugadas pelo Cordeiro, organizados em pequenos grupos erguendo a bandeira do Evangelho eterno, da vida e da libertação. Seguidores do Servo sofredor e do Profeta perseguido e ressuscitado a eles está confiado o futuro do Cristianismo, disseminado no mundo globalizado em redes de comunidades, enraizado nas distintas culturas locais e com os rostos dos seres humanos concretos. Deixando para trás a pretensão de excepionalidade que tantas separações trouxe, se associarão a outras igrejas, religiões e caminhos espirituais no esforço de manter viva a chama sagrada da espiritualidade presente em cada pessoa humana.
Dentro deste tipo comunional e de mútua aceitação das diferentes igrejas, a Teologia da Libertação terá um lugar natural. Ela recolherá reflexivamente os esforços dos cristãos pelo resgate da dignidade dos pobres e da dignidade e dos direitos da Terra e animará a caminhada da humanidade rumo a um mundo que ainda não conhecemos mas que cremos estar alinhado àquele que Jesus sonhou.
Então, Teologia da Libertação terá cumprido a sua missão. Comprenderá que no binômio Teologia da Libertação, o decisivo não é a Teologia mas a Libertação real e histórica, porque esta e não aquela é um dos bens do Reino de Deus.

Leonardo Boff

Leonardo Boff, 1938, doutorado em teologia e filosofia, foi durante mais de 20 anos professor de teologia sistemática no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis e depois professor de ética, filosofia da religião e de ecologia filosófica na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Foi professor visitante em várias universidades estrangeiras e galardoado com vários dr.h.c. Escreveu mais de 80 livros nas várias áreas teológicas e humanísticas e sempre se entendeu no âmbito da Teologia da Libertação.


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